
Pesquisa do Ibope e Instituto Paulo Montenegro detalha as precariedades do ensino básico no interior do Brasil, que condena alunos das áreas rurais à falta de perspectivas de futuro
Brasília (20/05/2010) – Escolas esquecidas, abandonadas pelo poder público, sem computadores e telefones, até mesmo sem biblioteca ou mesmo uma simples sala de leitura, em ambientes que condenam os alunos à desesperança e imobilidade social. Esse é o cenário identificado pelo Estudo Nacional das Escolas Rurais, trabalho inédito contratado pelo Sistema CNA/SENAR e realizado pelo Ibope, Instituto Paulo Montenegro e Instituto CNA, para mapear a situação das unidades de ensino fundamental do interior do Brasil, que revela dados surpreendentes. “Temos um cenário de pobreza e esquecimento, que consolida uma forte inércia , sem perspectiva de futuro ou de desenvolvimento para quem estuda no campo”, disse a presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), senadora Kátia Abreu, ao divulgar a íntegra do estudo, nesta quinta-feira.
A pesquisa foi realizada em escolas multisseriadas de 10 Estados brasileiros: BA, DF, MG, MT, PA, PE, PR, RJ, RS, e TO. Em cada uma das cinco regiões do Brasil foram escolhidos dois Estados, aquele com o melhor resultado no IDEB e o que tem o pior resultado. Os dados obtidos são muito preocupantes. Cerca de 70% das escolas rurais não têm biblioteca e somente 32% têm banheiros adequados. Em 76% das escolas, o antiquado mimeógrafo está presente e é um importante instrumento de apoio ao ensino. Em contrapartida, 66% das escolas não têm computador; 74% não têm máquina fotocopiadora, 56% não têm televisão, videocassete ou aparelho de DVD.
O cenário desolador vai além das condições físicas das escolas, envolvendo também a situação do corpo docente, índices de rendimento e baixas expectativas dos alunos. O emprego nas escolas garante, para 66% dos professores, no máximo, dois salários mínimos mensais. Em 50% das escolas não há diretor presente e em 48% dos casos, não há coordenador, supervisor ou orientador pedagógico.
Durante a pesquisa, foi aplicada a Prova Brasil em 50 Escolas. A média das notas ficou 10 pontos abaixo da média nacional em Língua Portuguesa e 34 pontos a menos em Matemática. Quanto mais pobre a família, pior é o resultado desta avaliação. Em alunos da classe E, por exemplo, o resultado da Prova Brasil foi 50 pontos mais baixo do que a média nacional.
O estudo envolveu escolas com classes multisseriadas, ou seja, com crianças de idades diferentes e que estão em séries diferentes. A pesquisa identificou que muitas vezes, o professor é obrigado a desempenhar múltiplas tarefas: além de ensinar, tem que limpar a sala e preparar a merenda. Na área rural, há quase seis milhões de alunos matriculados no ensino básico regular e aproximadamente 53 mil escolas, mas quase 50% delas têm só uma sala de aula. Em todo o Brasil, há 107 mil escolas e cerca de 53 milhões de alunos no ensino básico, somando as áreas urbana e rural.
“O pior do ensino básico oferecido no meio rural é estabelecer um quadro de continuidade da situação de abandono, condenando essas crianças, principalmente as mais pobres, a acreditarem que nunca poderão ser doutores”, afirma Kátia Abreu. A senadora destaca que a falta de uma educação de qualidade elimina esperanças e perspectivas de mobilidade social. “O que estamos oferecendo a essas crianças é morte cultural, morte profissional”, destaca a presidente da CNA.
ENSINO NO MEIO RURAL - DADOS DO ABANDONO
70% das escolas não têm biblioteca |
76% das escolas ainda utilizam o mimeógrafo |
74% das escolas não têm máquina fotocopiadora |
58% das escolas convivem com esgoto inexistente ou inadequado |
92% das escolas não têm internet |
66% das escolas não têm computador |
82% das escolas não têm telefone |
56% das escolas não têm televisão |
32% dos pais dos alunos nunca estudaram ou não completaram a 4ª série do antigo primário |
95% dos pais querem que os filhos freqüentem a escola |
30% das crianças trabalham, a maioria ajudando os pais na roça |
49% dos alunos já reprovaram de ano |
55% dos alunos mais pobres, da classe E, têm no máximo mais 5 livros em casa |
66% dos professores recebem, no máximo, dois salários mínimos |
Não há presença de diretor em 50% das escolas |
Alunos mais ricos têm notas melhores que os mais pobres |
>>Clique aqui para ver o estudo.
SISTEMA CNA/SENAR LANÇA O PROJETO ESCOLA VIVA
“O Estudo Nacional das Escolas Rurais coloca o Brasil frente a uma agenda urgente, que é a obrigação de dar atenção ao ensino oferecido no campo”, alerta a senadora Kátia Abreu. Pois o Sistema CNA/SENAR já começou a fazer a sua parte. Foram apresentados nesta quinta-feira (20/05) os primeiros resultados do projeto “Escola Viva – Farol da Cidade e da Família” e lançado o projeto “Senar Rondon”. Ambas propostas têm por objetivo elevar os padrões das escolas oferecidas às crianças que estudam no campo.
O projeto “Escola Viva” vai criar condições para que a família e a comunidade participem do dia-a-dia das unidades de ensino rurais. A escola deverá ser o principal instrumento de desenvolvimento social e comunitário, prevê a proposta. Para isso, a projeto prevê ações como a melhoria da formação técnica. A primeira ação já foi realizada: a reforma da escola estadual Brigadas Che Guevara, em Monte do Carmo, no Tocantins, com apoio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR). Há várias possibilidades de ações, como implantação de turnos integrais de ensino e desenvolvimento de cursos profissionalizantes no espaço da escola. “Nos vazios sociais e institucionais, precisamos atender também as famílias dos alunos”, diz a senadora Kátia Abreu.
O projeto “Senar Rondon” realizará uma seleção de estudantes voluntários de ensino superior das áreas de Pedagogia, Serviço Social, Agronomia, Veterinária, Enfermagem e Engenharia Civil que vão atuar em áreas rurais de 10 Unidades da Federação: BA, DF, MG, MS, PA, PE, PR, RJ, RS e TO. Serão realizados trabalhos em escolas públicas rurais durante os períodos de férias dos universitários. Todas as ações terão por objetivo melhorar as condições de desempenho dos alunos, promovendo o acesso ao conhecimento e a interação, com envolvimento dos pais e da comunidade. Serão 17 dias de atividades. A primeira turma do “Senar Rondon” sai a campo entre os dias 16 de julho e 1º e agosto deste ano.
>> Clique aqui para ver o projeto Escola Viva.
FRASES |
“A pesquisa pode mostrar que não há apenas uma realidade distinta entre as escolas urbanas e rurais, mas uma realidade distinta entre as escolas do próprio meio rural”.
Ana Lima – Diretora Executiva do Instituto Paulo Montenegro |
“O estudo mostra a maneira equivocada com que pensamos a educação. Preocupava-se com o transporte dos alunos da zona rural e fecharam as portas para as escolas”.
Carlos Eduardo Sanchez – Presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) |
“Com o Escola Viva, vamos levar os professores até a casa dos alunos na semana em que eles não forem à escola”.
Marcelo Garcia – secretário executivo do Instituto CNA |
“Sempre houve uma dificuldade de olharmos a educação no campo como olhamos na cidade. Para as dificuldades do campo, houve até avanço”
Rosa Neide Sandes de Almeida – representante do Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Educação |
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